1 - Uma nova casa
Acabei de me mudar. Estou em Ann Arbor / Michigan apenas há cinco
dias e pode-se dizer já tenho bastante que contar. Depois de ter
ficado instalado no Oxford Conference Center durante um trio de noites
a jantar piza gélida acompanhada de nutritivos copos de 7UP, a prioridade
primeira tornou-se encontrar um sítio definitivo para morar. O Oxford
Center, que se camuflava bem como um híbrido de centro de conferências
e pousada de juventude, além de humanamente frio cobrava nada menos
que 50 dólares por noite de estadia (+/- 9.000 escudos). Números
talvez aceitáveis para os “standards” americanos, mas claramente
de fugir para os padrões portugueses. Paupérrimo de trocos,
precisava impreterivelmente de procurar uma alternativa habitacional.
Comecei por peneirar penosamente as muitos agulhas em palheiro em que
se disfarçavam os anúncios de habitação do
jornal da Universidade de Michigan e das paredes do campus. A Marilyn Finkhaas,
a secretária afecta ao departamento, secção e grupo
de investigação com quem vou trabalhar, no seu papel de anfitriã
também me ajudou na procura de casa e falou-me de um apartamento
que estava para subarrendar. Telefonei ao individuo que ela me indicou
e combinei encontrar-me com ele para ir ver o apartamento.
O apartamento ficava apenas a sete minutos a pé do campus norte,
o local onde se situa o edifício do EECS e onde vou passar a maior
parte do meu tempo de trabalho. A distância era sem dúvida
um elemento importante a considerar tendo em conta o quanto rotineiro o
trajecto casa/EECS se iria tornar. Ao meu encontro surgiu um rapaz oriental
de dentes cariados e hálito de fígado de bacalhau que vestia
uma calças pretas feitas de cabedal. Pelo que me contou, tinha terminado
um curso de engenharia e estava a iniciar-se na árdua tarefa da
procura de emprego. Sem rendimento garantidos, no entretanto, via-se forçado
a livrar-se do apartamento que partilhava com mais dois orientais.
O dito apartamento tinha o aspecto esperado para algo que custaria
300 dólares por mês. À minha disposição
ficaria uma cozinha, uma casa de banho e uma sala partilhada, juntamente
com quarto individual que dava para dormir (mas pouco mais). Por 100 dólares
extra poderia ainda ficar com parte da mobília -- quero dizer, umas
tábuas aparafusadas com formas familiares. Curiosa, achei a forma
minimalista como moravam os outros dois orientais -- chineses, creio. Pouco
mais tinham no seu quarto que um colchão mal guarnecido e pilhas
de apontamentos escolares dispostas geometricamente pelo chão. Era
um local que, redefinindo o conceito de luxo e indispensável, daria
para viver. Uma opção tacticamente correcta, mas que estrategicamente
poderia deixar muito a desejar. Seria certamente uma decisão defensiva.
Tomar-la seria dispensar o confronto directo com a cultura americana apenas
para me refugiar no conforto do lar. Acontece porém, que segundo
a clausula 4/7.96 do meu regulamento de acção e comportamento
tal não é permitido. Encontros sociais precisavam-se, e teria
de procurar tomar a atitude certa: sair na demanda do que realmente queria.
Uma solução que abrisse possibilidades, não uma que
as fechasse.
Tinham-me falado dos COOPs -- Cooperative Housings. Basicamente, um
COOP é uma casa onde vive um molho de malta nova, tipicamente estudantes
que se presenteiam com o prazer de viver um começo de vida independente
longe dos familiares. Um COOP é uma instituição em
si mesmo -- com constituição própria e tudo. A renda
anda na ordem dos 370 dólares, mas inclui comida, lavandaria, e
todos os aprovisionamentos que um estudante ou uma pessoa normal precisam
para viver. A comida colectiva -- “guff”, como eles lhes chamam -- está
contida em enormes frigoríficos de onde se pode tirar tudo o que
se conseguir comer. Os jantares são também partilhados em
acontecimentos solenes onde toda a gente se reúne para alguns instantes
de interacção social. Do meu ponto de vista, os COOP eram
perfeitos só revelando um senão -- cada membro tem obrigatoriamente
de trabalhar entre cinco e seis horas semanais para contribuir para a manutenção
da casa e o cozinhar dos jantares.
Dos muitos COOPs espalhadas pelos quadrantes de Ann Arbor, apenas dois
tinham vaga quando cheguei a Ann Arbor -- a John Nakamura House e a Euguene
Debs House. Visitei as duas. O COOP Nakamura, de aspecto meio sujo e a
mesa de matrecos na sala a lançar o mote, trazia à memória
a imagem estereotipada da republica universitária onde nada mais
acontece do que incessantes festas selváticas. Na curta visita que
efectuei à casa surgiu até a oportunidade para um provocativo
trocar de olhares com uma bela rapariga latina. Foi uma imagem que só
por si me deu vontade de lá ficar.
A Debs House, em contrapartida, tinha um visual bem mais catita. Pintada
de vermelho por fora, fazia lembrar as casas de campo tipo -- “Uma casa
na pradaria”, e notava-se a olhos vistos que esta normalmente bem mais
asseada que Nakamura. Debs caracterizava-se, também, por ser uma
casa vegetaria, isto é, a comida servida aos jantares é sempre
vegetariana -- nada de peixe ou carne. Tal puderia-se revelar um problema.
Não que eu seja fanático por carne, mas não é
raro ouvir-se dizer-se que umas proteínas animais de vez em quando
não fazem mal a ninguém -- certo?! E um peixinho…
Em Debs, fui recebido por um rapaz manifestamente diplomata que prontamente
se ofereceu para me mostrar os cantos e vértices da casa. Nos dois
andares, R/C e cave que constituíam a arquitectura de Debs viviam
nada menos que um grupo de catorze raparigas e oito rapazes -- um ratio
que podia, nitidamente, ser mais desfavorável. Não vislumbrei
qualquer rapariga como a que tinha visto em Nakamura, mas dado a sua atmosfera
acolhedora Debs apresentava-se como a candidata mais bem posicionada para
futura moradia.
Tomada a decisão de me mudar para Debs, foi prontamente apresentado
ao meu companheiro de quarto (room-mate) -- o Erick Anderson. Um miúdo
alto, loiro e de boa aparência que usava um traje recorrente por
estas bandas -- T-Shirt larga, calças penduras pelas ancas e boxeurs
para toda a gente ver. Juntamente com ele, foi-me apresentado mais de uma
dezena de outras pessoas, os nomes das quais esqueci antes de conseguir
ou tentar lembrar. Parecia havia pessoas em todos os formatos. Desde o
protótipo da rapariga feminista com ar de mulher madura ao Taxi-Driver
alienado. Deparei em particular, com uma miúda de brinco no sobrolho
e discurso esotérico que me confessou estar amedrontada com a perspectiva
de uma semana cheia de estudos depois de ter passado a semana anterior
completamente ganzada (high) a olhar para as nuvens pintadas no tecto do
seu quarto. Achei piada à sua honestidade. Em suma, um grupo que
parecia valer a pena explorar.
Feitas as contas, acabei por trocar a proximidade do laboratório
do EECS pela vida comunitária e a privacidade de um quarto individual
pela partilha de um espaço a dois. Se isso foi ou não uma
boa opção ainda estou por descobrir. Talvez o futuro mo venha
a desvendar.
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5 - A Essência de se Ser Vegetariano
Como seria de esperar, ser-se vegetariano é coisa vulgar em Debs
e Lester House. Quem o é diz sê-lo por várias razões,
em diferentes combinações e importâncias. Por razões
ecológicas -- as práticas de despejo e reaproveitamento dos
detritos da indústria de carnes levantam problemas ambientais. Por
razões de saúde -- os animais abatidos estão muitas
vezes infectados com microorganismos e as gorduras não são
poli-insaturadas. E, claro está, por respeito dos pressupostos direitos
dos animais. Há-os também em diferentes variedades: os vegetarianos
estritos, que se permitem beber leite e comer ovos; os “vegan”, que só
metem para a veia rebentinhos de cereal e derivados de soja; e os de ocasião,
que se limitam a fazer como os amigos e a entrar numa moda que até
é “Cool”. Muitos, contudo, levam a questão a peito. Em Lester
até existe um placar em frente de uma sanita intitulado -- “Dez
argumentos para vencer uma discussão com um carnívoro”. Para
elogio dos não vegetarianos, o carnívoro retratado é
um desajeitado dinossauro com um cérebro do tamanho de uma colher
de chá.
Apesar da adversariedade, um dos meus passatempos preferidos tem sido
provocar os vegetarianos da casa com interrogações bio-filosóficas
referentes à sua magna religião. Talvez matar um vegetal
seja tão desprezível com matar um animal. Talvez as flores
e os frutos tenham sentimentos e sofram com a dor. Talvez as plantas sejam
monstros diabólicos que se alimentam dos detritos dos animais em
decomposição. Quem sabe?! Comerias uma alforreca se ela fosse
comestível? E um protozoário? Talvez… Talvez tenha arranjado
mais antipatias que amizades. Criticismos à parte, decidi dar-lhes
uma oportunidade. Alguns vegetarianos da casa até são tipos
porreiros e, afinal de contas, eu era agora também, ainda que involuntariamente,
um (quase) não comedor de carne.
Um grupo de militantes ferrenhas de Debs resolveu ir assistir a uma
conferência sobre direitos de animais. E perante o convite delas,
não pude resistir -- alinhei na brincadeira e fui também.
A conferência teve lugar no edifício do departamento de ambiente
e recursos naturais da UofM, e era organizada pelo grupo local para a defesa
dos direitos dos animais. A conferencista era a fundadora da “United Poultry
Concerns” -- uma organização cujo o nome não deixa
dúvidas em relação ao pressuposto intuito. Professora
de Inglês por profissão, a dita conferencista tinha sido convidada
para falar os meandros sujos da indústria de criação
de aves. Era uma senhora com aspecto quarentão, com braços
e tronco da espessura de um alfinete, mas que em tempos já devia
ter sido uma mulher atraente. Tinha cabelo liso e escuro como a noite,
provavelmente pintado, e pelos adornos e modo de vestir retornando 600
anos atrás no tempo seria tomada de certeza por uma feiticeira qualquer.
Eu estava nitidamente em minoria. Toda a gente naquela sala parecia
ser vegetariano convicto. Eu devia ser mesmo o único carnívoro
selvagem. Senti-me inferiorizado. E os comentários vindos das conversas
de fundo não ajudavam -- “Já tentei ser vegan por uns tempos,
mas não consegui. Tive que voltar a ser vegetariana”. As diferenças
de princípio entre mim e as pessoas naquela sala deviam ser maiores
que o mundo, e o melhor que tinha a fazer era fechar a boca e não
dizer nada.
A apresentação começou com a história de
“Viva” -- uma galinha expressiva e encantadora, com personalidade própria,
que tinha sido resgatada ilegalmente de uma fábrica de carnes. Tinha
escapado a uma morte que era certa, mas depois de ser tratada com amor
e carinho tinha florescido para uma nova juventude. A crista, outrora murcha
e de cor amarelo-esverdeado doentio, tinha-se tornado vermelha e erecta,
e as penas que antes mal cobriam um corpo esfacelado tinham agora florescido
como malmequeres numa primavera acabada de chegar. Uma verdadeira história
de cinema de domingo à tarde. Notava-se a emoção na
cara da senhora ao contar como tinha mantido uma relação
profunda e marcante com Viva. Contou como a simples atenção
e o cuidado, que qualquer animal merece, tinha feito de Viva um novo ser
-- uma galinha feliz que emanava alegria de viver.
A conferência resvalou rapidamente para o campo pessoal e afectivo.
E às tantas, a senhora já estava a falar do quanto tinha
sido profundamente afectada quando criança pelo facto de ter visto
uma galinha sem cabeça a fugir pelo quintal a fora -- a refeição
da família. Segundo contava, aquele episódio tinha-a martirizado
inconscientemente durante toda vida e quando se apercebeu disso, claro
está, tinha-se tornado defensora ferrenha dos direitos das aves
-- galinhas e perus, principalmente. A narrativa prosseguiu. Ouviram-se
histórias de horror e coragem, de sofrimento e falta de compaixão.
Verdadeiros genocídios em massa, e tudo apenas para bem do estômago
da humanidade. Acho que também comecei a ficar sensibilizado. Mas
não sei se com pena da senhora ou com pena das galinhas.
O culminar da narrativa foi a apresentação de um vídeo
(ilegal) de uma fábrica de abate de galinhas. O cenário era
impressionante. As galinhas vinham às dezenas por cabaz, e em cada
menos de um segundo lá ia um pescoço de galinha. Nada era
desperdiçado. Antes de prosseguirem pela linha de processamento,
eram metidas num balde sem fundo viradas ao contrário para aproveitar
todo o santo pingo de sangue. Fez-me, definitivamente, olhar para o arroz
de cabidela da minha avó de outra maneira. Depois de esvaziadas,
seguiam penduras num cabo pelas patas; algumas, provavelmente, ainda vivas.
A peregrinação terminava em grande. Caíam num centrifugadora
laminada que em menos de um piscar de olhos lhes fazia saltar as penas.
A eficiência da máquina era brutal. E o design, mais elegante
que o dum clip. Nessa fase já estavam prontas para comercializar.
Sem sangue e penas, discutivamente, alguma poderia estar viva. O que também
não seria muito boa ideia. Os perus não tinham melhor sorte.
O percurso era semelhante, só a técnica de degolagem era
diferente. Uma guilhotina automática fazia todo o trabalho. Entravam
vivos e saíam mortos. Uma autêntica revolução
francesa à escala animal. A dada altura desviei o olhar e dei uma
espreitadela na audiência. Estavam aterrorizados. Algumas almas extra-sensíveis
até saíram a meio. Não podiam com tanta violência.
A vida sexual do presidente Clinton era uma coisa, mas aquilo era demais.
Houve também uma sessão de perguntas. Perguntas fáceis.
Perguntas que reflectiam o tom vegetariano e indignado da audiência.
O consenso era mais que unanime. Aquilo tinha que acabar. O esforço
tinha de ser conjunto. Havia que movimentar forças e vontades --
lutar. A esperança, nascida da revolta, preparava-se para evadir
a alma de todos. E quando a moral estava quase pronta para se levantar,
alguém se lembrou de fazer uma céptica pergunta -- eu. Perguntei
o que aconteceria se todo os Estados Unidos em peso deixassem de comer
carne. Implicaria isso que toda aquela selvajaria iria acabar? Passaria
o mundo animal finalmente a viver em paz? Era uma pergunta de retórica,
claro, e ainda antes da conferencista pestanejar, exclamei: não
aconteceria o mesmo que aconteceu com a indústria tabaco?! Não
passaria a indústria de abate de aves a exportar para a Ásia
e para os países de leste?! A senhora ficou estonteada com o cinismo
da minha pergunta. Afinal eu estava ali a mais. Não tinha nada que
fazer perguntas, e muito menos perguntas difíceis. Mas ela lá
começou a enrolar. A explicar o quanto é complexo o mundo
em que vivemos; que nada se resolve num dia para o outro e que, acima de
tudo, era preciso acreditar. Lutar e acreditar. A resposta tornou-se recursiva.
Volta não volta já nem ela sabia do que estava a falar. Mas
o mote era -- acreditar e lutar.
Ainda que insuficiente como resposta, a argumentação
era elucidativa. Revelava a verdadeira essência de se ser um verdadeiro
vegetariano. Um verdadeiro vegetariano era afinal um sonhador. Um homem
ou mulher que luta por um ideal. Que não desiste, mesmo reconhecendo
a improbabilidade de conseguir vencer. Um paladino do mundo moderno. Não
um activista de meia-tigela, mas sim uma criatura que se recusava a desvanecer.
E isso chegava para mim. Não é que as questões filosóficas
da causa vegetariana passassem a ficar mais claras. Mas não conseguia
deixar de me identificar com a atitude. Não com a causa, mas pelo
menos com a atitude. Talvez nunca viesse a tornar-me vegetariano, mas havia
algo em mim que tinha a ver com a essência do ser vegetariano. Mais
do que isso, a partir desse dia passei a ver a carne doutra forma. Não
apenas como comida, mas uma parte de um mundo de complexidade subtil onde
um ser deu a vida para eu continuar a minha.
No fim dessa mesma semana, fui com o Arjen fazer umas compritas e passamos
pelo clube-de-vídeo. O Arjen é fanático por vídeos
e trá-los às resmas por semana para casa. O acontecimento
não teria muito para contar, não fosse o facto de um dos
vídeos que o Arjen trouxe ser o “Flint vs. People”. Tratava da história
verídica de um homem americano que nos anos 60 tinha ficado milionário
à custa de editar uma revista erótica-ou-pornográfica
demasiado “sofisticada” para a época. Vi o vídeo com o Arjen
sentado no sofá da sala de televisão da Debs, e achei que
o filme até era interessante. O Arjen também gostou do vídeo,
mas mais que isso o vídeo foi para ele inspirador. Alguns minutos
depois de termos visto o filme, chegou ao pé de mim e disse – “Queres
ir até ao Dejavu?”. O “Dejavu” era um clube de reputada fama com
stripers profissionais, que ficava em Ypsilanti -- uma cidadezinha subúrbio
de Ann Arbor. Achei o convite do Arjen irresistível, e o seu entusiasmo
não foi preciso para me contaminar. Afinal, nunca tinha estado num
clube de stripers. E se tinha havia razões válidas para eu
ter vindo para os Estados Unidos, aventura era certamente uma delas.
Abalámos de casa já devia ser umas onze da noite e quando
lá chegámos não faltava muito para a meia-noite. Lá
estava ele -- “Dejavu, Gentlemen´s Club”. Tinha um toldo vermelho
ofuscante (como não podia deixar de ser), mas o aspecto deserto
da frente não deixava transparecer o que se passava lá por
dentro. O Arjen exclamou -- “Chegámos! A cidade da escumalha branca
(white skum)!”. Assim era, porque muita da gente que não tinha dinheiro
para comprar casa em Ann Arbor morava ali. O aspecto era certamente diferente.
Já não se viam as árvores e a relva iluminada de luzes
coloridas, nem os edifícios de tijolo puzzle. Eram mais lojas sem
graça e apartamentos pré-fabricados rodeados de contentores
de lixo. Um cenário mais digno da América Latina do que propriamente
dos Estados Unidos das aparências. Apesar da mudança de cenário,
não pudemos deixar de notar que estava um frio de rachar. Os passeios
estavam meio enlameados meio cobertos de neve. Apressamo-nos a entrar.
O ambiente lá dentro era definitivamente diferente do de fora.
Todo o espaço de parede estava coberto de néon florescente
com todas as muitas cores do arco-íris. O chão tinha tapetes
com desenhos de serpentinas de Carnaval, e as mulheres com a pouca roupa
que traziam vestida eram simplesmente -- Uhauu! O clube estava cheio. Mal
havia sítio para eu e o Arjen nos sentarmos. Acabamos por ficar
num sítio mais ou menos estratégico, mas quando lá
chegámos já o espectáculo ia no ar. À nossa
frente erguia-se um pequeno palco onde uma senhorita de um certo “charme”
se envolvia em contorções sedutoras que se aparentavam com
dançar. O mais cativante da cena era o traje da senhorita, que numa
palavra se resume a -- nenhum. Demorei um certo tempo até me enquadrar
com o sítio onde estava, mas sabiamente acabei por me recostar e
apreciar. Cada senhorita tinha o tempo de uma música para mostrar
o que valia, tanto na arte de seduzir como na arte de encantar. O objectivo
era cativar a audiência o suficiente para que se prestassem a pagar
15 dólares por uma dança mais pessoal. Uma dança de
colo (“lap dance”), como na gíria do negócio lhe costumam
chamar. Uma das apresentações até teve um toque de
humor. A senhorita envolta num mar de escuro besuntava-se com cremes coloridos
florescentes que lhe escorriam pelo corpo abaixo; e que quando impressos
em papel até davam um boa recordação para levar.
Houve uma senhorita a quem eu achei uma graça especial. Quando
vestida, tinha umas calças de licra verde florescente e um top que,
no mínimo, se poderia dizer do tamanho ideal. Depois de conferenciar
com o Arjen, tinha decidido -- ia convidá-la para uma dança
pessoal. Quinze dólares eram só quinze dólares, e
eu de certeza que não queria vir-me embora sem a experimentar. Basicamente,
tudo que tínhamos que fazer era sentarmos num dos sofá à
nossa rectaguarda e esperar. Tínhamos direito a duas músicas,
mas isso revelou-se pouco tempo para me deleitar. Empoleirada numa barra
vertical mesmo à minha frente a senhorita começou a remexer-se,
e em menos de meia volta passou a estar empoleirada em cima de mim. Eu
não podia fazer nada. Essa era a única regra do jogo. Estava
ali sentado de mãos imóveis a ver um turbilhão de
contorções sem nada poder fazer. Ela continuava impávida
e serena, quase indiferente à minha presença. Sentava-se
em cima de mim em tantas posições e feitios que nem o autor
do Kama Sutra podia imaginar. Envolvia o meu corpo com tantas partes do
seu que sentia o seu calor energético vindo de todas as direcções
-- mas mais não podia fazer do que apenas desejar. Por instantes,
acho mesmo que comecei a ficar excitado. Cheguei a sentir saudades da minha
última companheira. E ainda levei um estalo de repreensão
por ter tentado irresistivelmente por a língua onde não devia
-- “No touching allowed (proibido tocar) ” -- mas acabei por fechar os
olhos e simplesmente deixar-me levar.
Tal como tinha começado, surpreendentemente, a dança
tinha terminado. Não quis que acabasse, mas os meus quinze dólares
já tinham expirado. Da senhorita apenas soube que era dali mesmo,
de Michigan, e que fazia o que fazia apenas para pagar as contas. Se me
disse o nome, esqueci-o. Apenas pude idioticamente exclamar -- “É
uma pena que nos tenhamos conhecido nestas circunstâncias!” -- e
voltei para o meu lugar.
O Arjen também tinha ficado deslumbrado por um garota que por
lá andava. Na realidade, ele fica deslumbrado com qualquer garota,
mas as do clube eram de facto de pasmar. Encorajei-o a dar o próximo
passo; não que ele precisasse. Emprestei-lhe vinte dólares
e chamei a senhoria. Não tardou que também o Arjen estivesse
sentado de olhos fechados sem saber muito bem o que lhe estava a acontecer.
Mas tinha aspecto de se estar a derreter todo. Também para ele duas
músicas tinham sido pouco, e quando voltou mal consegui falar. Quando
voltou a si, disse -- “Já tinha ido a um clube de stripers no Canadá
com a minha equipa de voleibol, mas a mulheres aqui são demais (Hot)”.
Ele gostou tanto da experiência que teve de repetir a dose. E lá
tive eu de sacar mais vinte dólares. Da segunda vez, escolheu uma
rapariga que era de espantar. Não fosse trabalhar ali, e arranjaria
casamento com qualquer pessoa em menos de um olhar. Mais uma vez, o Arjen
ausentou-se por instantes para o mundo dos passarinhos. Eu, vendo de fora,
voltei definitivamente a mim. A magia do meu momento dissipou-se quando
vi a minha companheira de aventura a contorcer-se para mais um cliente
anónimo que se sentava no sofá que há pouco tinha
sido o meu lugar.
Durante a nossa estadia, encontrámos uma rapariga conhecida
do Arjen que outrora também tinha morado em Debs House. Servia às
mesas, também para pagar contas. Tinha saudades de Debs, segundo
contava. Desafiou-nos a lá voltar com o puritano do Behnam. Ela
própria lhe pagaria uma dança pessoal. Falámos-lhe
disso no dia seguinte, mas a única coisa que conseguimos foi que
não nos respondesse. Para um leitor do Corão assíduo
como o Behnam, o nosso descaramento era no mínimo ofensivo. Ainda
o tentamos subornar com o boné vermelho que o Arjen tinha trazido
do Dejavu, mas foi em vão.
Chegámos a Debs por volta das quatro da manhã. Pensei
que me devia sentir mal por ter empreendido em tão profana aventura.
Tinha corroborado com os males da sociedade, e entrado na lógica
que fazem as pessoas irem e manterem aberto um sítio como o Dejavu.
Tinha sido cúmplice da indecência que minava a ética
e a moral da sociedade. Talvez me devesse sentir assim, mas não
o sentia. Tinha passado um bom bocado e afinal tinha ajudado alguém
a fazer aumentar a sua conta bancária. Achei que não havia
espaço para falsos moralismos. Todas as pessoas acabam, mais tarde
ou mais cedo, por vender uma parte de si. Prescindir dos idealismos e absolutismos
morais de infância e encarar o mundo tal como ele o é. Não
seria a profissão de striper tão razoável como outra
qualquer?!? Independentemente da resposta, o episódio levou-me a
re-submergir nas questões do vegetarianismo. Depois daquela noite,
era claro que havia coisas que simplesmente estavam na minha natureza.
Não havia nada a fazer. Eram assim e pronto. Talvez comer carne
fosse uma dessas coisas. Não havia nada a fazer.
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6 - Encontros imediatos
Há uns tempos atrás, recebi um convite invulgar -- a Vanessa
Mayeski convidou-me para falar sobre Portugal. Acontece que a Vanessa é
uma rapariga toda voluntariosa. Para além de fazer teatro improvisado/participativo
nas cadeias de Michigan, de onde retira os seus 700 dólares de sustento
mensal, também colabora activamente num programa de alfabetização
para pessoas idosas. Com prazer e agrado, desloca-se, frequentemente, a
Ypsilanti com o intuito de se reunir com um grupo de pessoas de idade para
lhes ensinar o B-A-BÁ da língua inglesa. Os encontros têm
lugar numa pequena sala de reuniões, situada na cave da biblioteca
municipal de Ypsilanti, bem junto da sala de recreio e literatura infantil.
É nela onde o grupo de sexagenários dá asas às
suas veias literárias, e é nela onde realçam as suas
ambições de (ainda) ser alguém.
Parte do programa de alfabetização para idosos inclui
a leitura de textos sobre terras e países distantes. E para tornar
o tema mais aliciante, as organizadoras costumam convidar pessoas dos respectivos
países para falar “ao vivo” sobre as maravilhas das suas nações:
a história, a cultura, as gentes e os lugares. Os idosos parecem
adorar a ideia e não param de solicitar pessoas de lugares exóticos
que tenham o dom da palavra e a capacidade de os fazer sonhar. Isso torna
o programa mais motivante e, acima de tudo, faz os idosos sentirem-se vivos
e felizes. Deste vez foi a minha vez de falar sobre Portugal.
O meu papel era bem simples. Uma das colegas da Vanessa tinha tirado
da Net um pequeno texto sobre Portugal, que devia ser lido em voz alta
e alternadamente pelos idosos. Era um texto básico, ao nível
de uma terceira ou quarta classe, mas que servia para o efeito. Tudo o
que eu tinha de fazer era ir comentando o que vinha no texto, corrigindo
ou complementando. Confirmei que, em Portugal, é frequente as pessoas
cumprimentarem-se com um aperto de mão mais que uma vez ao dia --
apenas porque lhes apetece, e que de facto os rapazes saúdam as
raparigas com amistosas beijocas faciais. Ficaram surpresos quando souberam
que havia em Portugal uma grande quantidade de castelos medievais espalhados
pelo país, e que era tradição as pessoas reunirem-se,
ocasionalmente, em grandes refeições familiares. Expliquei-lhes,
contudo, que, independentemente do que o texto dizia, em Portugal havia
mesmo mais que cinco Universidades e que um pouco mais que 30% da população
sabia ler e escrever. O texto falava de um Portugal de há trinta
anos atrás, mas que apesar disso era ainda, em grande medida, o
Portugal actual.
Sempre que tinha oportunidade para interromper a leitura engasgada
dos idosos, aproveitava-a para atirar a baixo a sociedade americana e falar
das grandes maravilhas de Portugal. O meu estado de espírito era:
“Já que ninguém nesta terra me leva a sério quando
tento falar dos problemas do sistema americano, ao menos vingo-me nos velhinhos”.
Disse-lhes que achava a sociedade americana demasiado dura e exigente para
com o indivíduo, que era demasiado “career-driven” e que se fomentava
em excesso a competitividade humana. Protestei contra a superficialidade
das relações humanas e contra o dinheiro como valor número
um. Denunciei a culturização forçada dos outros povos
do mundo pelos americanos e a hipocrisia política em relação
a Africa, Ásia e à América Latina. E contestei a sua
frieza e o excesso de racionalismo pragmático. Em suma, disse-lhes
que tinham as prioridades todas trocadas.
Portugal, por outro lado, era o paraíso ao cimo da Terra. Um
sistema de segurança social razoavelmente equilibrado, universidade
para todos, amigos verdadeiros e um sol de invejar. O tipo de sítio
onde qualquer pessoa deveria gostar de viver. Não lhes falei dos
pequenos problemas que haviam em Portugal, mas para o caso eles eram totalmente
irrelevantes. Fui um tanto ou quanto parcial, mas apesar disso, sincero.
Para o respeitável grupo de anciões e anciãs a
viverem de uma pensão de reforma de tuta e meia de dólares
o meu discurso era revelador. O sistema americano não era afinal
perfeito, e nem tão pouco o melhor. Pelo contrário, Portugal
começou a assemelhar-se a uma terra prometida -- um sítio
onde se podia, de facto, ser feliz. Um sítio onde se podia ver a
família mais que duas vezes por ano e onde beijar delicadamente
a mão de uma rapariga não era sinónimo de assédio
sexual. Aos poucos começaram a levantar a voz e a protestar contra
as “injustiças” a que eram sujeitos. A desdenhar e a contestar o
sistema. O meu plano estava a funcionar.
Foi então, nesse momento, que a colega da Vanessa intervir.
Olhou para mim, seriamente, e exclamou – “Você podia estar a dizer-nos
tudo isso, e ser tudo mentira. Não podia?!”. “Mas não estou”,
exclamei eu. “Mas nós não sabemos isso. Pois não?!”
, insistiu ela. Foi uma atitude inesperada, mas que transpirava de um sentimento
que não me era totalmente estranho. Para os americanos, a América
era o centro do Mundo. A terra da fortuna e da oportunidade. O local da
Terra onde toda a gente aspirava viver. O modelo para o qual todas as nações
haveriam um dia de caminhar. Se não era uma atitude xenofóba,
era certamente uma de superioridade.
Não era a primeira vez que assistia a semelhante diarreia mental.
Lembro-me de no ano passado, enquanto voava de Lisboa para New York, estar
sentado ao lado de um rapaz de uns vinte e poucos anos idade, que era deficiente
mental. Concretamente, sofria da doença de Parkinson -- o mongoloidismo.
Quando começámos a sobrevoar solo Americano, o rapaz teve
uma reacção instintiva que foi no mínimo caricata.
Olhando pela janela do avião, começou a palrar em voz de
retardado -- “América… eu sou americano… o maior país do
Mundo… se gostas, fica, se não gostas, vai-te embora, não
precisamos de ti”. E continuou -- “… O maior país do Mundo… se não
gostas vai-te embora”. Ironicamente, era uma rapaz com um QI de dúzia
e meia que melhor fazia transparecer o sentimento de superioridade americana.
Um rapaz que se limitava a vocalizar uma mensagem eminentemente subliminar.
A mesma mensagem que estava implícita no comentário da colega
da Vanessa -- “… e ser tudo mentira. ...”.
Voltei para casa com a Vanessa, desgostoso por me aperceber que estava
a morar num sítio onde as pessoas pensavam assim, mas contente por
ter conseguido, por momentos, fazer um grupo de idosos sonhar. Depois de
uma longa conversa, a Vanessa começou a compreender o meu ponto
de vista e as minhas desilusões em relação aos mitos
americanos. Nessa noite, a barreira cultural que existia entre nós
parecia mesmo ter desaparecido. Era uma grande pena ela já ter três
namorados.
Nessa semana andava cheio de sorte. Sem que tivesse de mexer uma palha
ou cabelo, bateu-me à porta uma segunda oportunidade para espezinhar
o ceguinho. Deste vez a vítima não era um grupo de idosos
indefesos, mas sim uma linda menina na inocência da tenra idade --
a Shara. A Shara é a irmã do Erick Anderson, mas eu conhecia-a
inicialmente como a namorada do Dante -- um rapaz de Lester que é
fisicamente uma cópia chapada do Erick. Entre as muitos tarefas
escolares que a Shara tinha de fazer nos próximos dias, uma era
escrever um artigo para a cadeira de Antropologia. O artigo devia ser baseado
numa entrevista a uma pessoa de cultura não americana, e nele dever-se-ia
confrontar diferenças inerentes às duas culturas. Exactamente,
o tipo de problemática que ultimamente me andava a varrer o espírito.
Como eu devia ser o bicho mais estranho que ela conhecia nas redondezas,
achou boa ideia convidar-me para ser eu o entrevistado. Claro está,
que, sem reticências, aceitei o convite.
Assim sendo, num Domingo à noite e depois de a fazer esperar
até que acabasse de ver o meu programa de televisão preferido
-- os Simpsons -- sentámo-nos no chão do meu quarto e do
Erick e demos início à entrevista. A Shara começou
por me pedir desculpas pelo incómodo da entrevista e confessou que
era um tanto ou quanto tímida. Disse-me que não se sentia
muito à vontade a questionar pessoas e que nem tão pouco
sabia muito bem o que me perguntar. Notava-se que ela estava embaraçada.
Tentei tranquilizá-la, dizendo-lhe para não se preocupar.
Tinha vindo ter com a pessoa certa. Se havia alguém na zona que
gostava de desbobinar sobre o tema dos contrastes culturais, esse alguém
era eu. Especialmente, se fosse para descarregar em cima do modelo americano.
Suplantado o prelúdio de timidez, perguntou-me então
quais os aspectos que eu achava que mais diferiam entre a cultura americana
e a portuguesa. Respondi-lhe, categoricamente – “Todos!”. Não foi
um grande começo, mas era a melhor resposta que me consegui lembrar.
“Todos” era, contudo, demasiado para a Shara, e portanto tive o cuidado
de esmiuçar. Falei-lhe das minhas frequentes campanhas contra os
americanos: da história do rapaz mongolóide e a dos velhinhos,
da minha experiência e a do Arjen em solo americano, das contradições
e sarcasmos do modelo americano, e em geral da forma negativa como eu os
via. O diálogo degenerou rapidamente num monólogo, e durante
minutos a fio descarregai na pobre criança tudo o que me ia na alma.
Pensei que ela me ia achar um chato, mas como era uma rapariga interessada
consegui manter o passo. A meio ainda tivemos que parar por momentos para
ela substituir as pilhas do gravador, mas naquela noite não havia
nada que fosse capaz de me calar.
A entrevista-monólogo prolongou-se pela noite a dentro e a partir
de determinada altura a Shara começou a sentir-se envolvida emocionalmente
com o meu discurso. Começou a rever-se no padrão americano
que eu tão asperamente descrevia. E passou a ver-se como uma escrava
da sociedade, presa a um destino que não queria. Não resistiu
a desabafar sobre as pressões a que se sentia sujeita: dos pais,
dos amigos, da família e dos professores. A Shara era uma rapariga
inteligente e não lhe era admitido, por ninguém à
sua volta, que alguma vez tirasse menos que um Muito Bom -- os “As”. Um
simples “Bom” ou um “Bom +”, não era aceitável. Seria prejudicial
para o futuro de uma brilhante carreira. Transparecia nos seus olhos o
constrangimento de alguém que faz uma coisa apenas porque é
obrigado. Confessou-me que tinha vontade de viajar. De deixar tudo para
trás e ir conhecer o mundo. Mas faltava-lhe a coragem. Não
tinha o espírito de aventura necessário para tal empreendimento.
E, p’ra além disso, no dia seguinte tinha de entregar o artigo à
professora de Antropologia.
Concordou comigo quando lhe falei de uma doença da qual a maioria
dos americanos sofriam -- o “sindroma do esquecimento fingido”. O terrível
vício que os americanos têm em se esquecer do que passou no
ontem, no que diz respeito à interacção social. Pode-se
passar uma noite inteira a confraternizar com eles: a beber copos, a contar
anedotas ou a fazer concursos de peidos e cuspo, que nada lhes toca. No
outro dia falam connosco como se nada tivesse acontecido. Mantêm
a mesma frieza, a mesma simpatia superficial e a mesma indiferença,
que revelaram no dia um. E não adianta tentar avivar-lhes a memória
com palmadas nas costas ou piadas retardadas. Para eles é como se
nada se tenha passado. Nada.
A Shara também achava esse comportamento irritante. Já
se tinha visto várias vezes numa situação semelhante
e não era certamente coisa que lhe agradava. Ficou surpreendida
com a minha perspicácia, mas uma vez assimilada a ideia, ficou de
imediato rendida à opinião que tal comportamento era detestável.
Pode-se dizer, que começou a haver alguma sintonização
entre a forma como eu e ela avaliávamos as questões culturais
em discussão. A noite já ia longa, contudo. E para terminar
a entrevista, pedi-lhe que mais tarde me desse uma cópia do artigo
resultante da entrevista e que me dissesse a nota quando a soubesse. Fiquei
convencido que naquela noite tinha feito um amigo.
Uns dias mais tarde voltei a encontrá-la. Questionei-a sobre
a nota e soube que tinha tido 90%. O suficiente para manter a respeitável
média dos “As”. Recordei-lhe que tinha ficado de me dar uma cópia
do artigo. Mas ela respondeu apenas com abanar de cabeça pouco elucidativo.
Tentei reavivar o espírito de abertura e amizade que se tinha criado
durante a entrevista. Mas notava-se nela a atitude de alguém que
mal me conhecia. Tentei contar-lhe umas piadas retardadas e dar-lhe umas
palmadinhas nas costas. Mas de nada valia. Ela já não se
lembrava de nada. Para ela nada tinha acontecido. Mesmo nada. |